NO SILENCIO, DEUS FALA
Quando estamos magoados, às vezes encontramos a cura falando sobre essa magoa – com um amigo, com um conselheiro, com Deus. Mas, por fim, chega o momento de parar de falar e começar a ouvir.
Há vezes em que falar é violar o momento… Nesses casos, o silencio representa o maior respeito. O termo que mais bem define instantes como esses é reverencia.
Essa foi uma lição que Jó, – o homem na Bíblia mais tocado pela tragédia e pelo desespero – aprendeu. Se Jó tinha um defeito, seu defeito era a língua. Ele falava demais.
Não que alguém pudesse culpá-lo; a calamidade lançou-se sobre o homem como uma leoa sobre um bando de gazelas, e, quando o alvoroço passou, mal havia restado uma parede em pé ou um ente querido com vida.
Jó sabia como era perder aqueles a quem amava quando a casa veio abaixo.
Jó nem teve tempo de enterrar seus filhos antes de ver a lepra em suas mãos e as terríveis feridas em sua pele. Sua esposa, ainda que muito compassiva, lhe disse: “Amaldiçoe a Deus, e morra”. Seus quatros amigos se aproximaram de seu leito como sargentos instrutores, dizendo-lhe que Deus é justo e que a dor é conseqüência do pecado, e que, tão certo quanto dois mais dois são quatro, Jó devia ter algum antecedente criminal em seu passado para sofrer assim.
Cada um tinha sua própria interpretação de Deus, e cada um falava em alto e bom som sobre quem é Deus e por que Deus fizera aquilo tudo. Eles não foram os únicos a falar sobre Deus. Quando os acusadores de Jó pararam, Jó deu sua resposta. De um lado para o outro eles andavam…
Jó abriu a boca… (3.1)
Então respondeu Elifaz, de Temã… (4:1)
Então Jó, respondeu… (6.1)
Então Bildade, de Suá, respondeu… (8.1)
Então Jó, respondeu….. (9.1)
Então Zofar, de Naamate, respondeu… (11.1)
Este pingue-pongue verbal se estende por 23 capítulos. Por fim, Jó fica cheio dessas “respostas”. Chega de conversa fiada em grupo! É hora de fazer um discurso importante. Ele segura o microfone com uma mão e o púlpito com a outra, e começa. Por seis capítulos, Jó dá suas opiniões sobre Deus. Desta vez, o capitulo começa com: “E Jó prosseguiu”, “E Jó prosseguiu”, “E Jó prosseguiu”. Ele define Deus, explica Deus, examina Deus. Tem-se a impressão de que Jó sabe mais sobre Deus do que o próprio Deus!
Chegamos ao capitulo 37 do livro antes de Deus limpar a garganta para falar. O capitulo 38 começa com estas palavras: “Então o SENHOR respondeu a Jó”.
Deus fala. Rostos se voltam para o céu. Ventos inclinam as arvores. Os vizinhos se lançam nos abrigos para tempestades. Gatos sobem correndo nas arvores e cachorros se enfiam no meio das moitas. Deus não precisou abrir mais a sua boca para falar que Jó soubesse que deveria manter a sua fechada.
Vou fazer-lhe perguntas, e você me responderá.
“Onde você estava, quando lancei os alicerces da terra?
Responda-me, se é que você sabe tanto.
Quem marcou os limites das suas dimensões?
Talvez você saiba!
E quem estendeu sobre ela a linha de medir?
E os seus fundamentos, sobre o que foram postos?
E quem colocou sua pedra de esquina,
Enquanto as estrelas matutinas juntas cantavam e todos os anjos se regozijavam?” (38.3-7)
Deus inunda o céu de perguntas e Jó não pode deixar de fazer outra coisa senão entender: somente Deus define Deus. Você precisa conhecer o alfabeto antes de poder ler; e Deus diz para Jó: “Você nem conhece o ABC do céu, muito menos tem vocabulário”. Pela primeira vez, Jó fica quieto. Silenciado pela enxurrada de perguntas.
Você já foi até as nascentes do mar, já passeou pelas obscuras profundezas do abismo? Acaso você entrou nos reservatórios de neve, já viu os depósitos de saraiva? É você que dá força ao cavalo ou veste o seu pescoço com sua crina tremulante? Você o faz saltar como gafanhoto? É graças à inteligência que você tem que o falcão alça vôo e estende as asas rumo ao sul? (38.16,22; 39.19,20, 26)
Jó mal tem tempo para balançar a cabeça em resposta a uma pergunta antes de outra lhe ser feita. A implicação do Pai é clara: “Assim que você for capaz de lidar com estas simples questões relacionadas a armazenar estrelas e esticar o pescoço do avestruz, teremos uma conversa sobre dor e sofrimento. Mas, até lá, não precisamos de seus comentários”.
Jó entendeu a mensagem? Acho que sim. Ouça a resposta de Jó:
Sou indigno; como posso responder-te? Ponho a mão sobre a minha boca. (40.4)
Observe a mudança. Antes de ouvir Deus, Jó não conseguia falar o suficiente. Depois de ouvir Deus, ele não conseguia falar nada.
O termo usado para tais momentos é reverencia.
Jesus ensinou-nos a orar com reverencia ao exemplificar para nós o “Santificado seja o teu nome”. Essa frase é uma petição, não uma declaração. Um pedido, não um anuncio. “Sê santificado, Senhor. Faze o que for preciso para ser santo em minha vida. Ocupa o teu legitimo lugar no trono. Exalta-te. Engrandece-te. Glorifica-te. Sê Senhor, e eu ficarei em silencio.”
A palavra santificado vem da palavra santo, e a palavra santo significa “separar”. A origem da palavra pode ser remontada a uma palavra antiga que significa “cortar”. Ser santo, então, é estar acima da norma, ser superior, ser extraordinário. O santo habita um nível diferente daquele em que o restante de nós vive. O que nos assusta não o assusta. O que nos preocupa não o preocupa.
Como Jó, você encontra paz na dor.
Como Jó, você cobre sua boca e fica quieto.
“Parem de lutar! Saibam que eu sou Deus!” (Salmos 46.10). Esse versículo contém um mandamento com uma promessa.
Qual o mandamento? Parem de lutar. Cubram a boca. Dobrem os joelhos.
Qual a promessa? Vocês saberão que eu sou Deus.
O barco da fé viaja em águas tranqüilas. A crença anda nas asas da espera.
Deixe que Deus seja Deus. Deixe que Ele o banhe em sua gloria para que tanto seu fôlego como seus problemas sejam absorvidos de sua alma. Fique quieto. Fique em silencio. Esteja aberto e disposto. Reserve um momento para ficar quieto e saber que ele é Deus.
(trecho do livro de Max Lucado – Dias Melhores Virão)